Blog para estudos e contatos com pesquisadores da história de Angola, angolanos e interessados de maneira geral. Pretende-se divulgar referências bibliograficas, fontes... e assim contribuir para uma adensamento ainda maior dos estudos sobre Angola, além de promover uma articulação entre estudiosos de diferentes áreas.
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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
Conto "A Fronteira de Asfalto" de Luandino Vieira
“A menina das tranças loiras olhou para ele, sorriu e estendeu a mão.
… – Combinado?
- Combinado – Disse ele.
Riram os dois e continuaram a a andar, pisando as flores violeta que caiam das árvores.
- Neve cor de violeta – disse ele.
- Mas tu nunca viste neve…
- Pois não ,mas creio que cai assim…
- É branca, muito branca…
- Como tu!
e um sorriso triste aflorou medrosamente aos lábios dele.
- Ricardo! Também há neve cinzenta… cinzenta escura.
- Lembra-te da nossa combinação. Não mais…
- sim, não mais clara da tua cor. Mas quem falou primeiro fostes tu.
Ao chegarem a ponta do passeio ambos fizeram meia volta e vieram pelo mesmo caminho.
A menina tinha tranças loiras e laços vermelhos.
- Marina, lembras-te da nossa infância? – e voltou-se subitamente para ela.
Olhou-a nos olhos. A menina baixou olhar para a biqueira dos sapatos pretos e disse:
- Quando tu fazias carros com rodas de patins e me empurravas a volta do bairro?
- Sim lembro-me…
A pergunta que o persegui há meses saiu, finalmente.
- e tu achas que esta tudo como então? Como quando brincavamos a barra do lenço ou as escondidas? Quando eu era o teu amigo Ricardo, um pretinho muito limpo e educado, no dizer da tua mãe? Achas…
E com as própria palavras ia-se excitando. Os olhos brilhavam e o cérebro ficava vazio, porque tudo o que acumulara saía numa torrente de palavras.
-… que eu posso continuar a ser teu amigo…
- Ricardo!
- que a minha presença na tua casa…no quintal da tua casa, poucas vezes dentro dela ! não estragará os planos da tua família a respeito das tuas relações…
Estava a ser cruel. Os olhos azuis de Marina não lhe diziam nada. Mas estava a ser cruel.
O som da própria voz fê-lo ver isso. Calou-se subitamente.
- Desculpa – disse por fim.
Virou os olhos para o seu mundo. Do outro la da rua asfalatada não havia passeio. Nem árvores de flores violeta. A terra era vermelha. Piteiras. Casas de pau-a-pique a sombra de mulembas. As ruas de areia eram sinuosas. Uma ténue nuvem de poeira que o vento levantava cobria tudo. A casa dele ficava ao fundo. Via-se do sítio donde estava. Amarela. Duas portas, três janelas. Um cercado de aduelas e arcos de barril.
- Ricardo – disse a menina das tranças loiras – tu dissetes isso para quê? Alguma vez te disse que não era tua amiga? Alguma vez que se te abandonei ? Nem os comentários da minhas colegas, nem os conselhos velados dos professores, nem a família que se tem voltado contra mim…
- Está bem. Desculpa. sabes, isto fica dentro de nós. Tem de sair em qualquer altura.
E lembrava-se do tempo em que não havia perguntas, respostas, explicações. Quando ainda não havia a fronteira de asfalto.
- Bons tempos – encontrou-se a dizer.
- A minha mãe era a tua lavadeira. Eu era o filho da lavadeira. Servia de palhaço a menina Nina. A menina Nina dos caracóis loiros. Não era assim que te chamavam? – Gritou ele.
Marina fugiu para casa. Ele ficou com os olhos marejados, as mãos ferozmente fechadas e as flores violeta caindo-lhe na carapinha negra.
Depois, com passos dicididos, atravessou a rua, pisando com raiva a areia vermelha e sumiu no emaranhado do seu mundo. Para trás ficava a ilusão.
Marina viu-o afastar-se. Amigos desde pequenos. Ele era o filho da lavadeira que distraía a menina Nina. Depois a escola. ambos na mesma escola ,na mesma classe. A grande amizade a nascer.
Fugiu para o quarto.Bateu com a porta. Em volta o aspecto luminoso, sorridente, o ar feliz, o calor suave das paredes cor-de-rosa. E lá estava sobre a mesa de estudo «… Marina e Ricardo – amigos para sempre». Os pedaços da fotografia voaram e estenderam-se pelo chão. Atirou-se para cima da cama e ficou de costas a olhar o tecto. Era ainda o mesmo candeeiro. Desenhos de Walt Disney. Os desenhos iam-se diluindo nos olhos marejados. E tudo se cobriu de névoa. Ricardo brincava com ela. Ela corria feliz, o vestido pelos joelhos, e os caracóis loiros brilhavam. Ricardo tinha uns olhos grandes. E subitamente ficou a pensar no mundo para lá da rua asfaltada. E reviu as casas de pau-a pique onde viviam famílias numerosas. Num quarto como o dela dormiam os quatro irmãos de Ricardo…Porquê? Porque é que ela não podia continuar a ser amiga dele, como fora em criança? Porque é que agora era diferente?
- Marina, preciso falar-te.
A mãe entrara e acariciava os cabelos loiros da filha.
- Marina, já não és nenhuma criança para que não compreendas que a tua amizade por esse… teu amigo Ricardo não pode continuar. Isso é muito bonito em criança. Duas crianças. Mas agora … um preto é um preto…
As minhas amigas todas falam da minha nigligência na tua educação. Que te deixei…Bem sabes que não é por mim!
- Está bem, eu faço o que tu quiseres. Mas agora deixa-me só.
O coração vazio. Ricardo não era mais que uma recordação longínqua. Uma recordação ligada a uns pedaços de fotografia que voavam pelo pavimento.
- Deixas de ir com ele para o liceu, de vires com ele do liceu, de estudares com ele…
- Está bem mãe.
E virou a cabeça para a janela. Ao longe percebia-se a mancha escura das casas de zinco e das mulembas. Isso trouxe-lhe novamente Ricardo. Virou-se subitamente para a mãe. Os olhos brilhantes, os lábios arrogantemente apertados.
- Está bem , está bem, ouviu? – gritou ela.
Depois megulhando a cara na colcha chorou.
Na noite de luar, Ricardo, debaixo da mulemba, recordava. Os giroflés e a barra do lenço. Os carros de patins. E sentiu necessidade imperiosa de falar-lhe. Acostumara-se demasiado a ela. Todos aqueles anos de camaradagem, de estudo em comum.
Deu por si a atravessar a fronteira. Os sapatos de borracha rangiam no asfalto. A lua punha uma cor crua em tudo. Luz na janela. saltou o pequeno muro. Folhas secas rangeram debaixo dos seus pés. O “Toni” rosnou na casota. Avançou devagar até a varanda, subiu o rodapé e bateu com cuidado.
- Quem é? – a voz de Marina veio de dentro, íntima e assustada.
- Ricardo!
- Ricardo? Que queres?
- Falar contigo.Quero que me expliques o que se passa.
- Não posso. Estou a estudar. Vai-te embora. amanhã na paragem do maximbombo. Vou mais cedo…
- Não. Precisa de ser hoje. Preciso de saber tudo já.
De dentro veio a resposta muda de Marina. A luz apagou-se. Ouvia-se chorar no escuro. Ricardo voltou-se lentamente. Passou as mãos nervosas pelo cabelo. E, subitamente o facho da lanterna do polícia caqui bateu-lhe na cara.
- Alto aí! O qu’ é que estás a fazer?
Ricardo sentiu medo. O medo do negro pelo polícia. Dum salto atingiu o quintal.
as folhas secas cederam e ele escorregou. O “Toni” ladrou.
Ricardo levantou-se e correu para o muro.O polícia correu também. Ricardo saltou.
- Pára, pára! – gritou o polícia.
Ricardo não parou. Saltou o muro. Bateu no passeio com a violência abafada pelos sapatos de borracha.
Mas os pés escorregaram quando fazia o salto para atravessar a rua. Caiu e a cabeça bateu violentamente de encontro a aresta do passeio.
Luzes acenderam-se em todas as janelas. O “Toni” ladrava. Na noite ficou o grito loiro da menina de tranças.
Estava um luar azul de aço. A lua cruel mostrava-se bem. De pé o polícia caqui desnudava com a luz da lanterna o corpo caído. Ricardo , estendido do lado de cá da fronteira , sobre as flores violeta das árvores do passeio.
Ao fundo, cajueiros curvados sobre casas de pau-a-pique estendem a sombra retorcida na sua direcção.”
Fonte: VIEIRA, Luandino. A fronteira do asfalto. In: VIEIRA, Luandino. A cidade e a infância. São Paulo. Companhia das Letras, 2007
domingo, 27 de janeiro de 2013
domingo, 13 de janeiro de 2013
Livro: "Sociedade, Estado: sociedade civil, cidadão e identidade em Angola" de Arlindo Barbeitos
O autor defende a emersão de uma sociedade civil mais forte e capaz de actuar, também, como sociedade politica, a transferência da questão identitária para a esfera privada e questiona o Estado jacobino, autoritário e rigidamente unitário como um único paradigma possivel em Angola.
Livro: "Poeticidade no discurso prosaico de Wanyenga Xitu" de Akiz Neto
“Poeticidade no Discurso Prosaico de Uanhenga Xitu”,
do escritor Akiz Neto, de modo original, percorrer opções temáticas e estilísticas do escritor Uanhenga Xitu. Ambos são cultivadores da palavra literária, que, mais do que pretexto, se faz constantemente presente nas dinâmicas da análise literária posta em cena. »
Mais informações clique aqui ou aqui
domingo, 30 de dezembro de 2012
Livro: "Floresta de Símbolos" de Victor Turner
O livro enfoca vários aspectos rituais do povo Ndembu no noroeste da Zâmbia, no centro-sul da África. Análises do simbolismo, bruxaria, ritos, circuncisão, curandeirismo e práticas curativas são desenvolvidas nesta obra, única do autor traduzida no Brasil.
Para ler uma resenha deste livro clique aqui
Sobre Victor Turner e suas obras clique aqui
Livro: "A História Revisitada de Kongo e de Angola" de António Custódio Gonçalves
Este livro, resultado de um aturado trabalho de campo e de investigação de fontes primárias, procura analisar sociedades e culturas tradicionais do Kongo e de Angola, na história de longa duração (séculos XVI-XX). Os vários textos desta época colocam questões cruciais para a África contemporânea. Este estudo revela-se fundamental para a compreensão dos desafios e mudanças que a história actual impõe ao desenvolvimento. A análise das instituições e mentalidades, das representações culturais e simbólicas, a correspondência do tradicional e do moderno, os vários encontros e desencontros de culturas, bem como as problemáticas do Estado, dos nacionalismos e das fronteiras, permite-nos rejeitar quer ideologias europeias de pretensas superioridades culturais quer fundamentalismos africanos.
Bibliografia sobre o Congo clique aqui
sábado, 29 de dezembro de 2012
Livro: "Deus é Feiticeiro" de Iracema Dulley
Este livro se iniciou com um espanto: em uma coletânea de provérbios em umbundu e português organizada por um padre católico em meados do século XX são apresentados diversos provérbios “relativos a Deus”. Entre eles, Suku onganga é traduzido como “Deus é feiticeiro”. O estabelecimento de uma equivalência desse tipo, à primeira vista tão inusitada, só poderia ser compreendido a partir da consideração das relações estabelecidas entre os agentes nas missões. Assim, este estudo se volta para as missões da Congregação do Espírito Santo no Planalto Central angolano durante o período colonial, do estabelecimento das primeiras missões católicas, em fins do século XIX, até a eclosão da Guerra de Libertação, em 1961. Com base em documentos, entre os quais se destacam as traduções realizadas na missão e registros etnográficos e históricos referentes ao período, a autora busca apreender a prática nas missões católicas, a qual deu origem a diversas convenções de significação. A equivalência acima é um exemplo de uma dessas convenções: a relação estabelecida entre a figura do onganga e o deus cristão possibilitou aos agentes entrar em comunicação e disputa.
Para saber mais do livro clique aqui ou aqui
Livro: "De Costa a Costa" de Jaime Rodrigues
Neste livro, Jaime Rodrigues discute um dos aspectos mais importantes da escravidão ocidental moderna - o tráfico de africanos, entendido a partir da história social. Jaime percorre a rota que ligava Angola ao Rio de Janeiro, do final do século XVIII até meados do século XIX, e analisa os mecanismos, os agentes sociais e os sujeitos do processo de escravidão, refazendo o trajeto dos escravos do momento em que eles eram capturados no interior de seu continente até a chegada ao Brasil. O resultado é uma ampla avaliação do significado dessa experiência para os milhões de africanos que trilharam esse caminho, por terra e pelo mar. São abordados temas como a captura e a venda dos negros na África, as relações sociais que se estabeleciam a bordo dos navios, o tipo de alimentação e as doenças que acometiam os africanos escravizados e os primeiros contatos com a nova terra. O autor se debruça também sobre as negociações e os intermediários que impulsionavam o tráfico, dando nova luz à cruel dinâmica do comércio negreiro.
Livro: "O Trato dos Viventes" de Luiz Felipe Alencastro
O padre Antônio Vieira escrevia: "Angola... de cujo triste sangue, negras e infelizes almas se nutre, anima, sustenta, serve e conserva o Brasil". Em O trato dos viventes, o historiador Luiz Felipe de Alencastro mostra que a colonização portuguesa, baseada no escravismo, deu lugar a um espaço econômico e social bipolar, englobando uma zona de produção escravista situada no litoral da América do Sul e uma zona de reprodução de escravos centrada em Angola. Surge então um espaço aterritorial, um arquipélago lusófono composto dos enclaves da América portuguesa e das feitorias de Angola. O autor mostra como essas duas partes unidas pelo oceano se completam num só sistema de exploração colonial cuja singularidade ainda marca profundamente o Brasil contemporâneo.
O Brasil colonial tem sido estudado da mesma maneira que a lua era observada antes dos vôos espaciais: do lado que reflete o sol, do lado de Portugal, da Europa. O trato dos viventes incorpora os eventos transcorridos em Angola à narrativa dos eventos brasileiros - é como descobrir o lado escondido da lua, a metade oculta da história do Brasil.
Para saber mais do livro clique aqui
A Revista Veja também discutiu o livro clique aqui
Livro: "Luanda, cidade e Literatura" de Tania Macedo
Este livro analisa as formas de representação da cidade de Luanda - capital de Angola - e sua predominância na literatura desse país. Desde o período anterior à chegada dos europeus até os últimos cinqüenta anos são recuperadas todas as formas de produção literária em Angola, com destaque para aquelas que enfocam espaços e tipos de personagem que percorrem "a cidade da escrita", Luanda, e em que podem ser vistas diversas faces do início da tomada de consciência da colônia que luta por tornar-se sujeito de sua própria história. Por último, há um exame sobre alguns romances em língua portuguesa que tomaram a cidade de Luanda como cenário privilegiado de ação.
Quer saber mais clique aqui
segunda-feira, 19 de março de 2012
Africa Passado e Presente: II Encontro de Estudos Africanos da UFF
Mais um livro on line
http://www.historia.uff.br/stricto/files/public_ppgh/hol_2010_AfricaPassadoPresente.pdf
Textos de Alberto da Costa e Silva, Leila Leite Hernandez, Marcelo Bittencourt e outros
domingo, 18 de março de 2012
terça-feira, 6 de março de 2012
Livro comemorativo dos 25 anos de atuaçao da Odebrecht em Angola
Acessem o link abaixo e conheçam o Livro comemorativo dos 25 anos de atuaçao da Odebrecht em Angola.
È um livro de divulgação da Construtora Odebrecht, mas as imagens de Angola e do povo angolano foram muito bem trabalhadas.
Acesse e confiram: http://issuu.com/lugobbo/docs/angola25anos_selecao
È um livro de divulgação da Construtora Odebrecht, mas as imagens de Angola e do povo angolano foram muito bem trabalhadas.
Acesse e confiram: http://issuu.com/lugobbo/docs/angola25anos_selecao
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